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Foi um inverno difícil. Em primeiro, por coisas cá minhas, mas também pela inclemência e desdém dos elementos, que se abateram sobre nós: pessoas, planeta. Entretanto, e sem ninguém dar por isso, ocupados que andávamos a contar mortos e feridos, a fazer balanços, a enxugar as águas, a secar esta humidade que nos corroeu os ossos, saltámos a Primavera (sabemos dela pelo rosa-choque das chorinas a enfeitar os canteiros, pouco mais) e aterrámos no Verão. E, sob este Sol de estio, faço as pazes com a terra, e com esta terra em particular. A verdade é que os fios eléctricos, esse trapézio infame de prédio em prédio, se notam agora menos, tão de encontro que vão ao azul do ceú; o cheiro da ETAR, confunde-se um pouco com o lodo da maré vazia; as gaivotas, voam mais alto e chateiam menos, e os espaços públicos, habitualmente frios e solitários, enchem-se de miúdos do liceu e de outros estudantes, que riem e conversam à sombra das muralhas e das paredes descascadas pela maresia e o tédio, lambendo olás ou de cerveja na mão.
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