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Hoje é o Forte, pronto: vamos falar do Forte. Começando pelas minhas memórias mais antigas, as indeléveis. Lembro-me de umas feiras de artesanato, com umas flautas e ponchos incas penduradas numas barraquinhas, desaquietadas pelo vento norte, mais uns brincos supostamente feitos à mão por artesãos de cabelo comprido e ar pouco lavado, uns brinquedos de madeira grosseiramente pintados, espalhados pelo chão esburacado - e de pouco mais. Não me interpretem mal: adoro feiras de artesanato, mesmo as mais pobrezinhas, mas nesse dia as costas das barracas, encostadas à muralha, não deixavam ver o mar. E o mar é a coisa mais bonita que há em Peniche - ou em qualquer outro lugar, já agora. Não sei exactamente qual a função histórica do Forte e não me apetece googlar; além de que existirá seguramente quem sobre isso tenha escrito muito mais e melhor, pelo que não vale a pena ocupar caracteres e a vossa paciência com ideias em segunda mão e uma pretensa erudição histórica. Só sei o que sinto quando lá entro; e o que sinto é abandono, desprezo, desinteresse. E o cheiro a maresia; e o som das ondas a carcomerem as rochas e as pedras, a roerem a muralha, a moê-la de cansaço.
Cuidar do património histórico não é sempre deixá-lo como está. A memória colectiva não se sente particularmente homenageada pelo facto de um monumento permanecer praticamente na mesma desde que algo de importante por lá aconteceu. A memória colectiva enaltece-se com a divulgação, com a transmissão do saber de forma alegre, viva e interessante. Manter pedra sobre pedra não basta (e, neste caso, nem isso, já que a degradação do local é evidente), tal como não basta exibir no seu interior um arremedo esconço de museu. O que nos leva à questão central: pousada: sim ou não? Confesso que, antes de aqui chegar, o passado recente e anti-fascista do Forte, evocativo de uma resistência heróica, fazia-me pender para o não, como se a construção de um local de lazer sobre aqueles quase-escombros fizesse desaparecer, não só as celas dos presos, como a memória da dor vivida dos anos obscurantistas da ditadura. De certa forma, um desrespeito. Depois, comecei a passear por lá em tardes frias de inverno, inóspitas, e a ser invadida pelo desalento, pela incomprensão e - pior ainda -, pelo tédio. Anda-se de um lado para o outro, e nada acontece. E eu a pensar, por exemplo, que a última pousada em que pernoitei (a de Santa Marinha, em Guimarães), é muito mais um museu vivo do que aquele que existe no Forte, com antiguidades e arte sacra expostas pelas várias salas, devidamente etiquetadas com informação relevante sobre a sua origem; salas centenárias recuperadas e mantidas na sua traça original (o antigo refeitório de pedra feito sala de jantar é disso exemplo), uma igreja barroca que ainda hoje cumpre a sua função e por aí fora. Ou seja, feitas as contas, e tudo se conjuga para que a eventual transformação do Forte em pousada fosse uma coisa muito boa para todos os interessados: a vocação turística da cidade, a abundância do espaço circundante, um cenário natural fabuloso e um monumento decadente a pedir urgentemente uma intervenção arquitectónica que o respeite e valorize. As vantagens económicas, essas, são evidentes: para além da susceptibilidade de polarizar o turismo de qualidade, criaria inúmeros postos de trabalho na cidade; fornadas de profissionais de hotelaria que, por exemplo, poderiam muito bem sair da escola situada um pouco mais acima, juntando-se assim o útil ao agradável. Ora, se não é o Estado (local ou central, não me interessa assacar responsabilidades) a cumprir com essa função, então que sejam os privados a fazê-lo. Que transformem o Forte num sítio bonito e aprazível, sem renegar a sua memória histórica, antes pelo contrário: honrando-a. Que se conte o que por ali foi acontecendo, que se exponha a memorabilia pelas salas, pelos corredores. Com esplanadas viradas para o mar, quartos temáticos, uma piscina oceânica e visitas guiadas (porque não?). E que assim se valorize também a paisagem urbana igualmente decadente que rodeia o Forte: porque não é só a decrepitude que é contagiosa, o contrário também é verdade. E o brio e o gosto pelo belo aprendem-se, como tudo na vida.
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